Mielopatia cervical em C3-C4 tratada por descompressão endoscópica posterior: recuperação neurológica completa, sem fusão multinível

Homem de 68 anos, ativo, com mielopatia cervical progressiva: perda de equilíbrio, alteração da marcha e da destreza das mãos. A ressonância mostrava estenose degenerativa em vários níveis, mas o sofrimento da medula (mielomalácia) estava num só, C3-C4. Tratei apenas esse nível, por descompressão endoscópica posterior, evitando uma fusão cervical multinível. A recuperação neurológica foi completa.
Doente: Homem, 68 anos
Patologia: Mielopatia cervical degenerativa (mielomalácia em C3-C4, sobre estenose multinível)
Técnica: Descompressão endoscópica posterior, C3-C4 (sem fusão)
Nível tratado
C3-C4 (de vários degenerados)
Recuperação neurológica
Completa
Fusão cervical
Evitada

Apresentação do doente

O doente, com 68 anos, autónomo e ativo, recorreu à consulta por um quadro progressivo de mielopatia cervical: perda de equilíbrio, alteração da marcha, sensação de rigidez nas pernas e diminuição da destreza nas mãos, com dificuldade crescente nas tarefas finas do dia a dia. As queixas tinham um impacto funcional significativo e vinham a agravar-se.

Diagnóstico

Ao exame, apresentava sinais de compromisso da medula cervical: marcha insegura, reflexos vivos (hiperreflexia) e perda de coordenação motora fina. A ressonância mostrou uma estenose cervical degenerativa em vários níveis. Mas o achado decisivo foi outro: havia hipersinal na medula em T2, ou seja, mielomalácia, num nível específico, C3-C4. Esse sinal traduz sofrimento da própria medula, e era ele que indicava onde estava o verdadeiro problema.


Imagem pré-operatória
RM cervical: mielomalácia (hipersinal medular em T2) em C3-C4, sobre estenose degenerativa multinível.

Porque escolhi esta técnica

Aqui estava a decisão mais importante. Perante uma ressonância com degeneração em vários níveis, a tentação é tratar tudo o que aparece na imagem. Mas a cirurgia da coluna não trata imagens, trata o problema responsável pelos sintomas. E o sofrimento da medula estava em C3-C4. Era esse o nível que precisava de espaço. Por isso, num doente relativamente jovem, ativo e sem deformidade cervical fixa, escolhi a estratégia menos agressiva: uma descompressão endoscópica posterior dirigida a C3-C4, em vez de uma artrodese cervical de vários níveis. O objetivo era descomprimir a medula no nível crítico, tratar a mielopatia e preservar ao máximo a mobilidade do pescoço. A cirurgia endoscópica da coluna, cervical incluída, é a área em que tenho maior diferenciação.

A cirurgia: como a fiz

Por uma abordagem endoscópica posterior, fiz a descompressão dirigida ao nível C3-C4, libertando a medula. A via endoscópica permitiu fazê-lo com mínima agressão muscular e preservação das estruturas, sem necessidade de qualquer fixação ou fusão.

Imagem intra-operatória
Fluoroscopia intra-operatória: instrumental endoscópico no segmento cervical, por abordagem posterior.

Evolução e resultados

A evolução foi muito favorável, com recuperação neurológica completa. O doente recuperou a marcha, o equilíbrio e a função das mãos.


Conclusão

Este caso mostra bem que, na cirurgia da coluna cervical, mais cirurgia nem sempre significa melhor cirurgia. O essencial é decidir bem: tratar o nível responsável pelos sintomas e preservar tudo o que ainda pode ser preservado. Descomprimir o nível certo, evitar cirurgia excessiva, preservar movimento, recuperar função.

Dr. Rafael Portela
Cirurgia da Coluna Vertebral
Membro fundador da European Society of Endoscopy (ESE) e da ISUBE, com treino dedicado em cirurgia endoscópica da coluna.


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Caso clínico real, partilhado com o consentimento do doente. A identidade é protegida e as imagens são publicadas mediante autorização.